A CORRELAÇÃO ENTRE A ENDOMETRIOSE E O MICROBIOMA DO TRATO REPRODUTOR FEMININO E INTESTINAL
Palavras-chave:
Endometriose, Disbiose, Microbiota, MicrobiomaResumo
Introdução: A endometriose configura-se como uma doença ginecológica benigna de caráter inflamatório crônico, multifatorial, e fortemente associada à desregulação imunológica e hormonal. Evidências emergentes apontam para uma estreita inter-relação entre a disbiose das microbiotas intestinal e do trato reprodutivo feminino e os mecanismos fisiopatológicos da doença. Essa perturbação do equilíbrio microbiano local e sistêmico tem sido investigada não apenas como consequência do microambiente inflamatório, mas também como fator etiopatogênico potencial, com impacto sobre a permeabilidade mucosa, modulação do eixo estrogênio-inflamação e ativação de vias imunológicas. Objetivos: Analisar criticamente de que maneira a inflamação crônica e as alterações na composição das comunidades microbianas intestinais e genitais influenciam a progressão da endometriose. Avaliar a associação entre disbiose, desregulação hormonal (com ênfase no estroboloma) e ativação imune, bem como explorar o potencial terapêutico de estratégias baseadas na modulação do microbioma. Metodologia: Trata-se de uma revisão integrativa da literatura conduzida por meio de busca sistematizada na base de dados PubMed, utilizando descritores controlados pelo DeCS/MeSH. Foram incluídos artigos publicados entre 2021 e 2024 que abordam a correlação entre endometriose e alterações na microbiota intestinal e/ou do trato genital inferior feminino. Foram priorizados estudos originais que apresentassem relevância clínica. Resultados e discussão: Mulheres com endometriose frequentemente apresentam disbiose intestinal, caracterizada pelo aumento de bactérias Gram-negativas, como Escherichia e Shigella, associado à redução de cepas comensais. Esse desequilíbrio compromete a barreira epitelial intestinal, permitindo a translocação de lipopolissacarídeos (LPS) através do epitélio. Uma vez na lâmina própria, essas moléculas podem alcançar a circulação portal e sistêmica, onde ativam vias inflamatórias mediadas por receptores Toll-like (TLRs). Esse processo resulta na produção aumentada de citocinas pró-inflamatórias, como TNF-α, IL-6 e IL-1β que inibem a apoptose de implantes. O estroboloma ao reativar estrogênios para a circulação favorece a proliferação de implantes. No trato vaginal ocorre a redução de Lactobacillus spp. e o aumento de Gardnerella, Streptococcus e Prevotella que ascendem pelo trato reprodutor feminino e alcançam o peritônio visceral, intensificando a aderência dos implantes endometrióticos localizados total ou parcialmente nesse revestimento, incluindo alças intestinais, útero e bexiga. Probióticos como Lactobacillus gasseri demonstraram efeitos benéficos. Estilos de vida inflamatórios agravam o quadro disbiótico, reforçando a interação entre fatores ambientais e microbioma. Conclusão: A endometriose é uma doença imuno endócrino-inflamatória, associada à disbiose em um ciclo de retroalimentação que intensifica a inflamação. Esse processo é mais evidente na endometriose infiltrativa profunda, devido à perda da integridade da barreira epitelial e à passagem de endotoxinas. Além disso, a doença apresenta alta taxa de recorrência após tratamento cirúrgico ou hormonal, reforçando a necessidade de novas estratégias terapêuticas voltadas ao controle da inflamação.
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